O livro Guerra aérea e literatura de W. G. Sebald, parece refletir sobre o tema da culpa alemã, sobre como a consciência alemã no pós-guerra é marcada pelo trauma da destruição e pela culpa pelas ações do regime. Humilhada, a nação alemã se calou sobre seus próprios sofrimentos, se negando a produzir qualquer reflexão importante sobre o sofrimento dos bombardeios aéreos que a Alemanha sofreu logo a partir de 1942. O argumento de Sebald parece ser que a literatura, que poderia ter fornecido um caminho espiritual para se pensar o sofrimento nos bombardeios e a participação dos alemães na II Guerra de um modo geral, não foi capaz de pensar sistematicamente o tema. Embora trauma e silêncio sejam considerados pares naturais desde a reflexão sobre as narrativas do holocausto, Sebald reclama uma espécie de dever por parte dos escritores de registrarem a experiência nacional em palavras. Um dos argumentos mais fortes, personalíssimos já que Sebald se refere a sua própria geração, é que ao silenciar sobre o trauma do bombardeio e da reconstrução de um modo geral, as gerações que passaram pela experiência negaram a seus pósteros um traço fundamental de sua identidade. O livro é, então, um acerto de contas geracional de Sebald, nascido em 1944, com seus pais e avós, algo que diz profundamente respeito à experiência alemã no século XX. Experiência, aliás, que naquilo que tem de monstruoso (e até o silêncio sobre o próprio sofrimento, considerando a escala da coisa, de como as cidades alemãs sofreram, é também monstruoso) é exemplar para o resto da humanidade, que parece tão estranha hoje em dia. Esta estranheza é antecipada pelos alemães, eu suponho. Outro tema de Guerra aérea e literatura é uma sutil discussão e defesa de Sebald de seu próprio estilo. Sua afirmação básica sobre isso é que, das poucas obras que representaram a experiência do bombardeio, as que o fizeram de forma mais direta, meramente descrevendo o curso de pesadelos que pessoas que sofreram as tempestades de fogo (literalmente) em Dresden ou Hamburg, forma mais eficientes na representação do evento do que as narrativas mais estilizadas que procuraram estetizar o ocorrido.
A meu ver ambos os temas têm como fundo a reflexão sobre a culpa alemã, e em vários momentos do ensaio Sebald encaminha a discussão para esse tópico. Há alguns pontos cegos, no entanto, que eu gostaria de pensar um pouco. O primeiro é a ideia quase aterradora de uma espécie de culpa cósmica diante do evento da II Guerra Mundial. Em algum momento da primeira parte do ensaio, quando Sebald ainda está preparando sua argumentação e se pergunta por que os bombardeios contra as cidades alemãs não puderam gerar grandes narrativas, ele levanta o tema da mudez das vítimas, de sua incapacidade de representar o horror por que passaram. Nesse ponto é apresentada rapidamente a possibilidade de que os alemães considerassem justo o que estavam sofrendo. Esta noção, se pensada radicalmente, supõe algum tipo de culpa coletiva tão terrível que é necessário pensá-la com a mesma dimensão de Auschwitz. A recriação dos horrores dos bombardeios é dantesca, e exigiria, segundo a hipótese de Sebald, uma história natural da destruição, como se o escopo da catástrofe fosse tão imenso que escapasse do reino humano. Esta não é uma caracterização muito diferente do Holocausto, mas, à imensidão da vitimização dos internados, praticamente irrepresentável, inadmissível para qualquer sujeito, insubjetivizável, digamos, devido ao absurdo e à injustiça do evento, corresponderia no povo alemão uma imensidão de culpa, o que o impediria também de considerar a si mesmo vítima dos sofrimentos por que passam. Há duas impossibilidades de vitimização aí, uma por excesso de inocência, outra por excesso de culpa, que talvez se encontrem nos extremos. Repito, então, que a escala da coisa impede a humanização desse tipo de sofrimento, e aí estaríamos diante de alguma dimensão do sagrado ou do sublime, que lentamente através de esforços contínuos e trôpegos tentamos trazer para a esfera do humano. Toda a reflexão sobre o shoah está dentro deste trabalho, de roubar a Baal os corpos que devorou e conceder-lhes de novo existência humana e histórica. O contraponto disso do lado alemão significaria, talvez, pensar que essa culpa pertence à linhagem dos erros humanos e da humana condição, mais que ao universo do declínio dos deuses e do apocalipse. Infelizmente este trabalho não foi feito, o que garante insidiosamente a permanência do nazismo entre os alemães, possivelmente entre todo o Ocidente. Imagino que o trabalho de Adorno se encaixe perfeitamente nesta tentativa de combater o nazismo simbolicamente após a queda e tentar garantir sua desmistificação, o que vale dizer, sua permanência fantasmal. É preciso notar, no entanto, que este trabalho suporia a superação de uma cadeia circular e simbólica difícil de ser quebrada: rehistoricizar o sofrimento dos bombardeios significa superar a culpa, de alguma forma liberar a história alemã do signo da abominação, do obsceno, o que vale dizer, também, possivelmente, tirá-la da suspensão do sublime silêncio em que o pós-guerra a encarcerou. O que significa, e é isso que Sebald evita dizer, ou não ousa dizer, embora todo seu texto aponte para isso, admitir toda a imensidão da culpa, do horror produzido naquele lugar do mundo, por aquele povo, ao sustentar e aderir aos valores daquele regime. Superar a culpa significa admitir toda sua extensão, mas esta plenitude é, de saída, insuportável, daí a transformação desta culpa em uma experiência de abominável/sublime. Não se fala, não se representa simbolicamente, sob risco de prisão, os signos do nazismo. O fato do nazismo ter sido silenciado coletivamente (e isto muito além do perigo de um retorno fascista no pós-guerra imediato) o tornou um fetiche, sua ausência o tornou indestrutível.
O silêncio de Sebald quanto ao encontro das duas dimensões de horror, da imensidão da vitimização e da culpa pela coletividade dos internados e dos alemães, e sua impossibilidade de abordá-la, senão dentro de um esquema benjaminiano de universalidade da ruína capitalista, preocupando-se com o sofrimento daqueles corpos por acaso alemães, mas esquecendo-se de fazer a crítica de suas escolhas políticas (ou colocando-as no mesmo saco da estupidez humana na modernidade), pode parecer a princípio a única possibilidade real de tratar o problema, mas infelizmente não dá conta de fato de superá-lo.