quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A BRIGHT ROOM CALLED DAY Tony kushner

A pergunta que se faz ao fim da narrativa é se a amizade pode ser de fato uma categoria política: como se o mais terrível efeito do nazismo fosse a dissolução de um grupo de amigos, seu enfraquecimento, exílio e anulação do futuro em comum. É uma boa metáfora para a esterilidade que os momentos de dureza histórica trazem, e pensamos imediatamente no que a ditadura brasileira fez com a geração de Torquato Neto e Gullar, ou o que o franquismo fez com o modrnismo espanhol.

O círculo de amigos como uma imagem da célula social mínima, livre e afetuosa, ao contrário das organizações e partidos, sua ruptura, portanto, como o grande desastre humano. O "ovo da serpente" de Bergman tratou de um tema próximo, e a conclusão diante do filme é que o grande terror não é a parcela dantesca e titânica da guerra, dos campos, das ruínas, mas sim algo mais tênue, o próprio humano, como substantivo. A perda do humano, da possibilidade da humanidade, eis o que está quase presente na peça de Kushner. Mas como em "Angels in America" há a recusa de ir até o fundo do abismo, e fica alguma esperança na atriz que decide ficar para trás, nos "buracos na fronteira" de onde se pode escapar da Alemanha nazista.

Nesta perspectiva, a de que o grande desastre é a esterilização de uma humanidade saudável, não desesperada, não insana, a figura de baz ganha uma dimensão heróica. Diante do acidente que o põe dentro de uma sala de cinema com Htler e uma arma carregada, embora compreenda perfeitamente toda perversidade e aberrância (?) do homenzinho, prefere não matá-lo. "Porque logo depois eu seria morto, e eu quero viver". Esta escolha pela própria vida, mais do que um gesto egoísta - e, de novo, Baz compreende o mal que é Hitler - é a projeção da peça em uma dimensão ética, como uma reflexão moral bastante profunda sobre o estofo de homens bons vivendo em tempos difíceis.

O paralelo com a era Reagan através de Zillah, especialmente seu discurso provocativo (e genial em termos de argumentação - mais um indício que estamos diante de uma fábula moral), comparando seu tempo ao nazismo remete diretamente à natureza do mal. Agora, em retrospecto, entendemos o exagero da comparação - aa era Reagan não gerou milhões de mortos, não diretamente, pelo menos - mas o argumento de Zillah, de que caso Pat Buchanan vivesse na Alemanha de 30 é bem provável que frequentasse as festas de Himmler e Göebel, faz pensar até que ponto a distinção entre potência e ato é realmente válida. O mal potencial é ainda assim mal, ou o mal é necessariamente algo que nasce da contingência, e ultrapassar o limite da moralidade é um gesto determinado pelas ciscunstâncias?

Gottfried Sweets, o diabo na peça, é uma alegoria bastante original. Um diabo cansado como um velho burocrata, mas que mantém o poder de desrtruir e de devastar. Resume em uma imagem a surpresa de Hannah Arendt diante da banalidade de Eichmann. Lembro de referência a uam conversa de Foucault (publicada em um MAIS há alguns meses ou anos) em que ele diz que coragem é coragem física, o gesto corporal de dizer não e fechar a boca; o resto serão talvez astúcias e manobras,, e carecem da dimensão de evento que a coragem física possui. Pois bem, este diabo alquebrado, como Eichmann,como a maioria da burocracia nazista, são o reverso desta coragem a que Foucault se refere. Há algo de maligno, de anti-humano, em retirar da força esta dimensão de evento, de momento de decisão em que potência e ato se unem. Matar milhares com o apertar de um botão, ou cometer atrocidades assinando documentos. É este, talvez, o sign ificado de vender a alma, um dos sentidos mais fortes da palavra "desumanização". O problema é sempre como recuperar esta alma de forma coletiva - porque em um nível pessoal haverá sempre as paixões e afetos, ou ao menos o sexo, como instâncias de redenção, embora mesmo isto possa ser destruído e esvaziado. Mas, coletivamente, não há a possibilidade de parar de apertar botões, nem de dar peso e substância a estes pequenos gestos perversos.

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