quarta-feira, 18 de novembro de 2009

VENENO REMÉDIO José Miguel Wisnik

É admirável ver um fenômeno como o futebol ser tratado com a medida exata, de forma complexa e bela como no livro de Wisnik. Francamente não sei dizer até que ponto concordo com a tese central, de que o jogo de bola é um modelo de conhecimento para a identidade nacional. Mas a imagem do veneno-remédio me parece justa para se referir ao papel que o jogo tem entre nós.

O pharmakon, a substância que tanto pode curar quanto adoecer, encaixa como uma luva. De fato o jogo possui uma dimensão libertária, de novo mundo prometido pelo pacto identitário brasileiro, e talvez o grande mérito do livro de Wisnik seja a apresentação e reflexão sobre este nível de sentido do jogo. E não me parece condescendente ou cega sua descrição da evolução do jogo, sua inserção nas diferentes fases do capitalismo e da espetacularização. Talvez a falha esteja não chegar à conclusão de que o jogo (enquanto jogo, ao menos, enquanto dimensão de liberdade e não simplesmente um acontecimento espetacular) está morrendo ou já morto exatamente devido à intensidade e conforto desta inserção. Mas se considerarmos a grande virtude do livro, que é dar o alcance correto à importância que o futebol tem entre nós e tratar sua estrutura e "narrativa" da mesma maneira que uma obra estética seria tratada, ou seja, se considerarmos a profundidade de reflexão que Wisnik concede ao jogo, seria realmente injusto pedir que seu livro concluísse que o jogo está morto.

Mas talvez não seja propriamente do futebol que o livro trate, mas sim da reafirmação da dialética da malandragem de Cândido, de uma brasilidade essencialmente subversiva, criativa e libertária. Tenho sempre a tendência de encarar as construções sobre a nacionalidade como falseamentos bem ou mal intencionados de questões mais centrais e, na verdade, universais. As excepcionalidades, seja a dos judeus, a dos persas ou a dos americanos, costumam justificar mais barbaridades que qualquer outra coisa. E no entanto é quase inevitável se perguntar se em um impossível fim da história ou uma Paz Universal em que cada civilização (caso seja possível mesmo falar em civilizações) seria instada a apresentar sua colaboração à História, a constribuição brasileira não seria exatamente uma certa idéia de liberdade, uma certa medida da alegria enquanto destino humano?


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