terça-feira, 24 de novembro de 2009

O INSTANTE CONTÍNUO Geoff Dyer

É uma boa reflexão sobre a tradição, seu sentido e construção. É obviamente uma história sobre a fotografia norte-americana, o que não é pouco considerando a riqueza de seu acervo, mas é limitada em vários sentidos. O principal limite é a suposição de que é possível narrar a construção desta tradição de forma endógena, ou seja, narrar a construção da tradição fotográfica americana através apenas de fotógrafos americanos. Mesmo Cartier-Bresson aparece marginalmente, e há um grande problema teórico aí.

Este problema à parte, é fascinante a maneira que Dyer trata a questão da tradição, com a metáfora do instante contínuo ele consegue entrelaçar várias dimensões bastante complicadas e sutis para construir um objeto complexo, um feito impressionante. O estilo do livro é o meio-jornalismo/meio-literário do ensaismo público anglo-saxão, o que francamente não é um problema para mim. Talvez isso limite um pouco o alcance da teoria que usa, especialmente Benjamin e Sontag são tratados de uma forma um pouco superficial, e as anedotas biográficas são apelativas às vezes, apesar de tornarem o texto mais saboroso. Sinto-me pessoalmente grato pela apresentação a Charis Wilson, a musa de Edward Weston. Dyer consegue reconstituir a paixão pelo corpo e pela mulher, o que contagia e nos leva à paixão também.

É ótima a idéia da tradição como um instante contínuo, como uma narrativa em que o tema ou leit-motiv (no caso alguma imagem aurática registrada pela câmera) vai e volta dentro da narrativa, modificando-se com certa autonomia dentro da obra de cada autor. Esta é uma das melhores maneiras de tratar aquilo que seria o objeto estético. E se de fato Dyer parece ser um pouco superficial ao tratar de Benjamin, seu livro inteiro é uma releitura, sutil, profunda e multi-dimensional do que seja o estético, talvez não em Benjamin exclusivamente, mas passando por ele necessariamente.

Dyer parece indicar que os temas, como o cego, a nudez feminina, o homem de sobretudo, a rua da grande cidade, as janelas etc etc são modificados e trabalhados em cada geração não exclusivamente por um mecanismo de influência, mas sim por sua capacidade de se impor dentro da própria tradição: eis o objeto aurático. A insistência de Dyer é que a tradição é uma grande narrativa. Ele não passa pela questão do "quem narra", o que é ótimo, essa é uma questão falsa, mas parece implícito que estamos diante de uma narrativa com certos momentos ou inflexões que surgem como tema de uma maneira semi-arbitária. O que faz com que a imagem do cego torne-se icônica? Esta é uma questão explorada, mas nunca respondida, e há aí alguma maestria, porque é esta não-resposta que preserva o processo. Não importa o porquê, importa sim que geração após geração de fotógrafos americanos retornará ao tema do cego, recontará a história modificando um pouco sua textura. Dar mais importância ao processo, entender que em termos estéticos e mesmo artesanais o "porquê" se dilui e é sobreposto pelo "como" e que a consciência real da arte não diz respeito a uma pretensa origem, mas sim ao próprio processo vivo, este é quase um princípio de ofício e uma boa introdução ao mistério da obra.

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