Deve-se desconfiar de livros de história. Seu alcance é sempre menor do que deveria ser, e, no entanto, sempre excessivo. Cada afirmação de um historiador corre sempre o risco de ser um equívoco grotesco, e não por culpa dos próprios historiadores, mas da matéria sutil com que lidam. A história é a disciplina básica, aquela que gera e sustenta todas as humanidades, por fim aquela que tenta dar conta do fulcro da aventura humana, de sua experiência, sentido, processo, devir, motivação...
A tarefa do grande historiador é disfarçar esta complexidade e a necessária fragilidade de qualquer um diante da tarefa em uma narrativa que aparente simplicidade, que possua clareza. Desde os grandes gregos esta tem sido a honra do historiador, e Hobsbawn se encaixa nesta fileira sem muitos problemas.
Sua proposta básica é dar conta da História Universal desde a Revolução francesa até a Queda do Muro. A quantidade de conhecimentos de outros campos que é necessária para apenas arranhar o objeto é vertiginosa, e, ainda assim, após ser vertida em sua prosa dá a impressão de ser coisa simples. O que permite esta fluência talvez seja um senso comum que o impede de se aprofundar em cada detalhe (o que multiplicaria ao infinito as cerca de 2000 páginas das Eras) e ao mesmo tempo estabelecer linhas de força para cada capítulo e para o período inteiro que sempre fazem-no retornar ao fio da narrativa. A primeira linha, a identificação da História com o progresso técnico e as relações de trabalho, é facilmente explicada por sua filiaçaõ ao marxismo. Os livros das Eras são História Universal, mas isso significa aqui História da Economia, com ênfase especial à História da técnica e da relação do trabalhador com o trabalho (mais do que com o Capital). A segunda linha de força pode ser situada na tentativa de dar conta de toda discussão pós-colonialista, com o interesse pela relação entre Europa e o resto do mundo. Hobsabawn não chega a militar pelas teses da teoria pós-colonial, mas é bastante clara sua compreensão de que o processo político em nível mundial (e mesmo intra-Europa) se dá em ambiente imperialista e colonial. Alguns capítulos, como a descrição da tentativa de modernização da China, ilustram bem este aspecto. O que o afasta definitivamente da teoria pós-colonial é uma certa neutralidade diante do imperialismo. O Império Britânico nunca é diabólico, por exemplo, a não ser talvez na descrição do processo de desindustrialização da Índia e nas grandes fomes. O não-julgamento e a não-moralização da dinâmica colonial fazem com que a balança penda mais para o lado do marxismo do que para do pós-colonialismo. Pessoalmente acredito que a narrativa ganhe bastante em termos estilísticos dessa maneira, mas há toda dimensão ética que permitiu que o pós-colonialismo ganhasse força nas últimas décadas e que não é questão menor: não há como deixar de pensar ou de discutir se o Imperialismo é uma perversão; o problema é como fazer isso de uma maneira que não pareça infantil.
A próxima linha de força se mostra presente com mais intensidade no último (e maior) livro da série, a Era dos Extremos. Ali, Hobsbawn se aproxima de algo muito próximo a uma narrativa literária, e francamente não poderia definir muito bem o que quero dizer. Mas o fato é que o narrado ganha vida e o texto se torna francamente ensaístico (montagniano, queremos dizer) em alguns momentos. Talvez isto seja possível pelo fato de Hobsbawn ter vivenciado a história do século XX, talvez seja devido ao último livro ser a culminância de uma evolução estilística que se iniciou anos e anos atrás quando decidiu escrever a série. O fato é que a narrativa histórica ganha a dimensão de obra-prima em a Era dos Extremos, a ponto de a referência possível ser as Histórias de Tucídides e dos outros clássicos. Ali há julgamento, mas também empatia e melancolia, desprezo e pasmo, ironia e horror. Utilizar-se destes sentidos sem se esquecer de estatísticas e de argumentação objetiva é algo que provoca, justamente, espanto.
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