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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O IDIOTA, de Dostoiévski, edição da Nova Aguillar

Em O Idiota a cnfissão tem um papel importante. Ela pontua a narrativa, estabelece suas seções: a confissão dos "malandros" na casa de Natassia Filípovna e mais tarde a confissão de Ipolit. Há uma certa confusão e su8jeira dostoievskiana na função destes episodios, mas ele nunca foi exatamente afeito a uma estrutura cristalina. A pergunta que cabe aqui é? por que a confissão do pecado é um tipo de paixão, assim como o perdão?

Na confissão de Ipolit, com a narrativa já bastante avançada, a relação confissão-perdão fica bem desenhada. Ipolit, o tuberculoso às portas da morte que decide se suicidar lê para uma platéia a carta em que apresenta suas razões e seu desespero. Espera ser perdoado de seu suicídio, mas acima de tudo espera ser perdoado em abstrato, ser perdoado de ter vivido e de ser homem. Algo ainda mais radical talvez, e aí começamos a ver o toque de gênio de Dostoiévski, ser perdoado de não ser um santo ou um messias como Mishikin.

A confissão não se dá propriamente por um sentimento de culpa, mas por um melancólico sentimento de fracasso - por outro lado, isso talvez seja tammbém culpa. Os homens que falharam em cumprir suas possibilidades, ou Natassia Filípovna, que fracassa em ser uma mulher pura, ou Mishikin capturado entre todos estes fracassos com sua candura e ingenuidade. O fgracasso geral desses personagens em cumprrem seu potencial e felicicdade. Este desespero do aperto, de ter fracassado vital e eticamente, leva à confissão. Não há culpa no sentido que a maioria deles, com excessão talverz de Natássia e de Rogojn, os dois anjos caídos, não tem a menor consciência de no que exatamente fracassaram. Sua miséira é um dom ao leitor, mas eles próprios não a percebem, embora vivenciem este desespero dostoievskiano de se estar afastado da graça.

Natássia, por esse prisma, é a personagem mais interessante da trama. Foi "m,anchada" por uma espécie de amancebamento forçadfo com um homem rico. Mais tarde, quando sai da província a que ele a ahavia preso para viver na capital, vai tornar-se de mulher-presa, espécie de puro objeto de uso sexual, em mulher-predadora, aquela que provoca escândalos e tem uma corte de de cretinos ao seu redor. É difícil levar a sério a esta altura da nossa história a noção de pureza, de mulher impura como aquela que manteve relção fora do casamento. No caso de Natássia isto, no entanto, ganha uma outra dimensão quando cai a ficha de que ela foi sucessivamente estuprada ao longo dos anos. Este grande desastre é tornado uma espécie de pecado: a vírtima passa a ser culpada - e sente-se culpada - pelo mal que lhe foi imposto. De novo a palavra culpá não se aplica: é um mundo terrível que torna Natassia impura, não há culpa, a não ser em uma visão tribal da lei divina; mas ainda assim há o veto às possibilidades vitais de grandeza, ou de santidade talvez na ética meio alucinada com que Dostiévski confronta seus personagens. Natassia foi tornada impura, mas emboras não tenha responsabilidade nenhuma por isso, é, ainda assim, impura. Esta espécie de essencialismop em que a substância parece ser uma coisa tão poderosa que aterra até mesmo a ideia de transitório: você é o que é agora, e isto toma sua substância a pionto de obliterar suas ciscunstâncias e possibilidades.

Esta substância do mal todo-poderosa é o que obriga à confissão, mas é também o que impede o perdão. Natássia, que tem consciência profunda de que mesmo tendo sido perdida, é perdida, está fora da esfera do perdão e da felicidade, mesmo nas mãos de um messias torto como Mishikin. Sua esfera, como de resto a de todos os outros personagens, é o desespero, esta queda da graça que Dostoiévski tornou o leitmotiv "sério" (porque haverá também aqueles ridículos e gozosos) das suas narrativas. Um homem irremissível é talvez uma antecipação de Kafka("Ah sim, caro amigo, há salvação de sobra no universo, mas não para nós", ou algo assim que Max Brod relata). Mas, ao contrário de Kafka, que via nesta impossibilidade de remissão uma espécie de absoluto humano - um ponto de inflexão em que o humano surgia mais puro, mais cru, mas também indestrutível exatamente por não contar mais com o divino, Dostoiévski vê apenas esterilidade. O fato do perdão não ser possível - apesar de desejado, apesar do mal ser reconhecido, apesar da confissão ser praticada - é como um sinal da ira divina, injusta aqui cojmo a condição humana.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

O IDIOTA, de Dostoiévski, edição da Nova Aguillar

Um messias pateta? Mishikin é a figura ingênua que Bakhtin via como o personagem-padrão do romance, aquele cujo olhar vai dar a medida da desordem do mundo. Mas se os meninos de Dickens ou o Quixote são personagens sem malícia, em Mishikin há um certo peso negativo, algo mais ( e mais sério, e com mais consequências) que o jogo irônico que a narrativa romanesca tem como seu habitus. Talvez fosse excessivo se referir a ele como personagem perverso, sem sentido psicanalítico aqui, mas há o tangenciar disso.

Mishikin não é o ingênuoi típico em parte porque sua santidade é para ser levada a sério. E a sombra de exigência que ela projeta sobre o mundo e os outros é uma condenação, ainda que involuntária. Se seu antípoda é Rogojn, este é infinitamente mais humano que Mishikin: odeia quando deve odiar, ama com corpo e com a impossível, infinita vontade de anular o outro, ao contrário de Mishikin, que não odeia, que ama apenas com piedade. Para o primeiro a santidade do último é vista não com a complçacência dos outros personagens diante de um idiota, mas com o resentimento de uma criatura baixa para com um anjo, e a consciência dolorida de que a sabedoria angelical não é de maneira nenhuma uma bênção para um mundo louco, antes uma forma de juízo. A relação entre os dois é a do homem revoltado para com Deus-Pai, como quem entende que o perdão é uma espécie de julgamento. ntes Mishikin odiasse e lutasse contras as ofensas que sofre, mas seu cionstante dar a outra face acaba sendo uma forma de agressão, algo arrogante e temível, aos olhos de Rogojn, a marca de um anjo e da redenção para Natássia.

E mesmo neste caso há alguma crueldade: sua recusa a este perdão e sua constante atração e repulsa em reelação a Mishikin talvez sejam em algum nível a resposta do acusado contra o acusador. Algo como o reconhecimento de que o perdão que Mishikin oferece só seria real (e não uma espécie de falsidade metafísica) em um outro mundo em que o sofrimento e o pecado não fossem imperativos, mas um ato de arbítrio, o que Natassia sabe muito bem que não é verdade. Esta creuldade santa estaria então em oferecer perdão, mas com a condição de que o perdoado reconhecesse sua culpa. Mas, se a culpa no fundo é da vida, é do mundo, da natureza humana, que culpa existe de fato? Neste caso o grande pecador é o santo, aquele que aposta que o reino de deus pode vir. O problema é que o reino de deus, como num dos pesadelos que os gnósticos sabiam imaginar, já veio e é terrível, e isto Rogojn e Natassia mostram a cada instante, e por isso sua relação é mais tocante e comovente, são dois desabrigados que se protegem. Que direito a voz trem um santo neste reino decaído?

Se a principio Mishikin é a antecipação meio farsesca da fábula do Grande Inquisidor, dos Irmãos Karamázov, ele é também uma mistura de Cristo e Inquisidor: o bem que procura desesperadamente fazer, sua necessidade de piedade e de perdoar acabam provocando desastres. Há, sim, algo de farsesco nisso, de "idiota" como no sentido que os gregos usavam, de pessoa egoísta, alienada, voltada apenas para si. O bem que Mishikin procura, assim como a redenção meio ridícula que oferece, são seu próprio bem, sua própria redenção (sabe-se lá o que uma pessoa que renunciou à vida teria a redimir...), ainda que a imagem seja sempre a da ação desinteressada. Da mesma forma que há o mal que acaba produzindo o bem, lembrando a senteça de Mefistófoles (e de Hegel também?), Mishikin faz parte dquele bem que acaba produzindo o mal, e perde não apenas a própria vioda por delicadeza, mas a vida de mais um punhado de pessoas. Sua atitude e candura ferem àqueles que precisariam de algom mais que a não-ação, a não-ousadia.

Seu retorno à idiotice no fim da narrativa após o assassinato/suicídio de Natássia é uma forma de martírio, mas também uma punição (talvez auto-irônica) de Dostoiévski contra este messais inútil, não, como no caso da fábula do inquisidor, por impedir o funcionamento de um maquinário, mas inútil porque a humanidade que ele veio redimir não precisava do seu perdão. Talvez precisasse do seu poder ou de sua simpatia, mas uma das constantes na obra de Dostoiévski, bastante impressionante em um homem religioso e uma das bases der sua genialidade, é que no mundo sub-lunar não acontecem milagres.