Há obviamente prazer no silêncio, a negação disso é impossível para quem lida com palavras, desde que um mínimo de franqueza seja o alvo. Há mais que prazer no silêncio, há conforto. E, no entanto, há também, como contraponto de uma música privada que foge a ser plenamente entendida, a vontade e a potência de escrever. Não há nada de confortável na escrita, e prazer, nesse caso, é sempre um termo escorregadio, que diz muito e pouco ao mesmo tempo. Talvez haja necessidade: a escrita é necessária. Assim, solenemente reinauguro essas postagens, embora poucos hajam lido até hoje os textos que circulam por aqui, o que francamente me agrada: dá uma certa liberdade, transforma isso em um caderno mais que em um medium. Obviamente isto mudará, daí escrever aqui e não em um caderno, que receberia melhor a liberdade, porém, a condenaria a um esquecimento incontornável. Uma certa velhice deverá vir do fato de uma voz não permanecer ilegível, o que cria exigências e expectativas, mas por enquanto eu tenho a liberdade de ser irresponsável, o que basta.
Então, tendo necessitado escrever de novo, não só aqui, mas em outros lugares, de outras formas, talvez fosse o caso de dar um sentido melhor a este blog. De um modo geral ele foi utilizado como uma lugar para registrar impressões de leitura, notas ou qualquer coisa do tipo. Ainda não é a crítica, mas tampouco achismo, o que dava aos textos ao lado de uma flexibilidade formal bem grande uma falta de alento que sempre me incomodou. Valerão, talvez, como exercícios de leitura, sem que sejam ainda uma arte de leitura, o que tornava difícil justificá-los aos meus próprios olhos. Vou me propor, então, algo diferente, uma pequena contrainte, algum método. Manterei o comentário de livros, de preferência de literatura contemporânea, e também a liberdade de não fazer ainda crítica aqui. O exercício novo, que espero consiga levar adiante, será o rastreio de sintomas e silêncios, ou seja, tentar entender o que determinado livro silencia e o porquê. Isso pode ser feito de muitas maneiras, e esse é o caminho de muitos exercícios críticos. Haverá, então, campo fértil para experimentação. O interesse desse pequeno imperativo é tentar entender até onde o negativo pode conduzir e, com sorte, criar aos poucos uma consciência mais completa de alguns textos pelos quais transito, o que, em minha cabeça e crença, significa antes de tudo entender e rastrear seus negativos. Após isso, talvez a crítica seja possível.
Nenhum comentário:
Postar um comentário