A continuação de "Império", este livro de Hardt/Negri teve menos impacto, embora não o considere menos importante. Não encontraremos em "Multidão" os malabarismos teóricos de "Império", nem tampouco seus momentos brilhantes. É um texto bem mais direto, talvez de quem já fale com autoridade conquistada e não precise se esforçar tanto para ganhar os ouvidos da platéia.
Talvez pudéssemos dividir o livro em 3 temas. O primeiro se refere à natureza política da multidão, conceito que apresentam, o "sujeito histórico" por excelência do nosso tempo (apesar do termo sujeito histórico não ser empregado pela dupla). Há uma certa confusão conceitual por conta da oposição simultânea da multidão ao povo e à massa, por um lado, e ao conceito de classe, por outro, o que é talvez uma falta de cuidado topológico, e o simples fato do livro suscitar esse tipo de discussão é indício inconfundível de que, apesar de na superfície termos um texto que refere a tradição de discussão dos intelectuais públicos, estamos diante de uma obra acadêmica, com suas cifras e jargões. De qualquer maneira, ao contrário da massa e do povo, conceitos unitários, e da classe, que exige uma visão de trabalho e de identidade já moribunda, a multidão é finalmente o aglomerado bio-político (e valeria a pena fazer uma crítica à maneira que os autores usam o termo). Este aglomerado tem a capacidade de agir em conjunto sem apagar as diferenças e tensões. Isto é proposto como uma solução para o sujeito político de hoje, mas há uma certa leveza aí (no mau sentido), irremissível. Creio que os autores acertam ao exigir uma atualização do sentido de conceitos como classe, oprimido, explorado, etc frente ao nosso tempo. Obviamente, propor a manutenção da diferença é necessário e se encaixa no grande projeto do pensamento moderno, mas qualquer agente político precisa de algum tipo de identidade. Então, a defesa da diferença como categoria política de base é necessária, a questão é que isto não pode ser feito rapidamente e sem pensar muito, muito bem, e é exatamente o que Hardt/Negri fazem.
Tanto no conceito de multidão quanto nas outras discussões do livro é necessário a idéia subjacente de estrutura em rede (algo já explorado em "Império"), apresentada como uma espécie de visão de mundo, ou maneira típica de pensar do alto-capitalismo em que vivemos. A estrutura em rede permeia tudo, da forma de guerrear dos grandes Estados às insurgências, das corporações aos movimentos anti-globalização, mais a sensibilidade estética, a maneira de organizar o trabalho, etc, etc. Outra idéia bastante rica é a compreensão de que o conceito de trabalho passou por uma mutação, com o surgimento da produção imaterial(muitas vezes coletiva e não monetarizada) como uma força histórica a ser considerada.
Além da multidão, os outros 2 temas que Hardt/Negri trabalham é a natureza da guerra e da democracia na atualidade. Aqui temos essencialmente um resumo e discussão ligeira de todas as idéias que vêm alimentando a esquerda na última década, especialmente a de Estado de Sítio que Agamben popularizou com "Homo Sacer". De novo, não há propriamente um problema de conteúdo, mas sim de leveza. Propôr uma nova Democracia fundada na "multidão" mundial pós-moderna é mais ou menos uma conclusão necessária das discussões atuais no campo anti-capitalista. A grande questão se refere ao como fundar esta nova soberania. A todo momento os autores deixam claro que seu livro n ão é um "que fazer?", mas é exatamente isto que falta para que possa existir de fato um campo de oposição real.
Outro problema é a ambigüidade dos autores em relação à violência política. Terroristas e grupos armados são utilizados a todo instante como exemplo de violência moderna, com seu funcionamente me rede a anti-unitário. No entanto, não conseguem ou não querem assumir a responsabilidade de fazer o transporte desta violência para o campo revolucionário. É claro que este tipo de proposição é perigoso, mas a verdade é que é impossível pensar uma subversão efetiva sem o horizonte da violência em algum momento.
Esta é uma discussão complicada até porque, como os autores apontam muito bem, o tipo de arma a ser utilizada hoje em dia será necessariamente distinto daquele do século XX, como o partido revolucionário ou a guerrilha. Mas é uma discussão necesária e, de novo, o livro não consegue defender ou apontar um modelo funcional de violência subversiva. Problematizar é obviamente importante, e isto é bem feito, mas soluções precisam também ser propostas, mesmo que isto leve a equívocos e a derrotas, e isto não é feito em absoluto. É nessas horas que um Debord faz falta...
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