
A imagem do Cristo Morto de hans Holbein é central no romance. Rogojn mantém uma reprodução em seu escritório, Ipolit se refere a ela (e nos fornece uma chave de leitura) em sua carta de despedida e Mishikin traz na memória seu encontro com o original em Berna. Nos três casos trata-se da experiência do sublime, mas filtrada pelo olhar específico de cada personagem. É Ipolit quem elabora melhor o choque diante da imagem:
"... O quadro representava, pois, um rosto terrivelmente desfigurado pelos golpes, tumefato, coberto de atrozes e sangrentas esquimoses, os olhos abertos e marcados pelo brilho vítreo da morte, com as pupilas reviradas. Mas o mais estranho era a questão singular e apaixonante que surgia às vista daquele cadáver supliciado: se todos os seus discípulos, seus futuros apóstolos, as mulheres que o seguiram e o mantiveram aos pés da cruz... se todos os seus fiéis tiveram semelhante cadáver sob os olhos (e aquele cadáver devia ser certamente assim), como puderam eles crer que ele ressuscitaria? Mesmo a contragosto, a gente diz a si mesmo: se a morte é uma coisa tão terrível, se as leis da natureza são tão poderosas, como se pode triunfar delas? ... Quando se contempla aquele quadro, imagina-se a natureza sob o aspecto de um animal enorme, implacável e mudo. Ou antes, por mais imponderada que pareça a comparação, seria mais justo, muito mais justo, assemelhá-la a uma moderna máquina de construção que, surda e insensível, tivesse estupidamente agarrado, esmagado e engolido um grande Ser, um Ser sem preço, valendo ele só toda a natureza, todas as leis que a regem, toda a terra, a qual talvez nem mesmo tenha sido criada para a aparição desse ser!
"... Os homens que cercavam o morto ... devem ter sentido uma angústia e uma consternação tremendas naquela noite que destruía de um só golpe todas as suas esperanças e quase sua fé ... E se o Mestre tivesse podido ver sua própria imagem na véspera do suplício, teria Ele podido marchar para a crucificação e para a morte como o fez?"
O embate entre a lei crua da natureza e a esperança humana está presente no Crsito morto de Holbein. Ipolit utiliza a imagem como uma figuração epifância e terrível do próprio Real, do qual espera se libertar através do suicídio. Já para Mishikin - que entre suas virtudes se atribuía o dom de ver bem, de ver como se nascido no instante - a imagem do Cristo morto é a encarnaç~~ao do sublime: algo que não é belo, mas que atrai de forma irresistível o olhar, e que cria infinita piedade. São termos bem próximos da maneira que ele justifica seu afeto por Natássia: a beleza sobre humana de seu retrato, como os excessos de seu comportamento, e sua paixão, e sua fúria, são algo que ultrapassam a mera beleza e provocam mais submissão e adoração do que propriamente desejo. É a visão do messias sobre a humanidade talvez, da mesma forma que o corpo do Cristo morto é a suma da história humana, como sua ressureição é o fim da mesma história. A morte do deus libera o homem, lança-o no tempo messiânico, no In illo tempore eterno. Mas, e aqui entramos de novo no jogo irônico de Dostoiévski, e se este corpo arruinado for, como todos indícios apontam, apenas mais um pobre coitado ignorante que se deixou morrer e, assim, com a esperança destruída, com o Grande Ser aniquilado, o homem será obrigado a permanecer refém da natureza pela eternidade, sem superar sofrimento, nem morte, nem mal, nem, finalmente, história.
Diante dessa possibilidade Mishikin deixa de ser o idiota genial e passa a ser o idiota-idiota e entramos em uma comédia de erros: onde o messias vê o casulo antes da metamorfose, o homem vê o ponto final e inevitável. Onde um vê o fim da história, outro vê a prova definitiva de que não é a história que finda, mas sim o homem. Um diz vida e o outro morte, e o ruído na comunicação desta conversa entre autistas dá forma à narrativa. De qualquer forma a sabedoria possível é chutada para muito além de qualquer possibilidade de conhecimento, e somos obrigados a permanecer no ponto de indecisão, de cegueira, onde a fé e seus saltos no abismo podem ser tanto estupidez quanto salvação.
Rogojn é uma terceira flexão do tema, a perspectiva talvez de Caliban da "Tempestade", da criatura ressentida. Sente prazer com a imagem, talvez porque ela coloque o messias no seu lugar, no lugar de todo o resto da humanidade que sofre e morre. E este nivelamento por baixo é a prova de que a santidade é um erro. Em um universo em que o evento máximo é a morte do Grande Ser, inapelável e inescapável, a única atitude sã é re-encenar este evento ao longo da história. Não que a crueldade seja prazerosa, mas ela é necessária para que algum cionhecimento e finalmente sentido sejam retirados do mundo. É de novo uma imaginação gnóstica. a morte de Cristo ressoa pela história, de tal forma que o próprio tempo se moldou para repetir o acontecimento. A roda da história vista como uma engrenagem, que para gerar movimento sempre retorna para o mesmo lugar. E o conhecimento desta crueldade é o conhecimento da própria história. Daí a ambiguidade de Rogojn diante de Mishikin, ao mesmo tempo antagonista que persegue e maltrata o idiota, mas vítima da falta de ação e da boa-alma cruel de Mishikin. Talvez o que Rogojn espere é que finalmente a roda da história se rompa através do milagre, que finalmente o corpo morto de Cristo ressuscite e que Mishikin tome e ame Natássia, e apague seus pecados (e não os perdoe, que os desfaça - este é o milagre) e que ele próprio Rogojn seja curado de seu desespero. Mas Mishikin não age, e a crucificação e a morte ocorrem mais uma vez, e a história faz mais uma volta. Quanto ao messias, este sai de cena e fica petrificado em sua idiotice até que o drama se repita, e de novo chegue o momento dele decidir entre o milagre e a repetição do mesmo.
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