quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O OUTONO DA IDADE MÉDIA Johan Huizinga


O livro de Huizinga é, a princípio, uma resposta ao de Burkhardt. E se este definiu nossa imagem do Renascimento, Huizinga fez o reflexo crítico desta imagem. Os períodos históricos e as regiões são distintos, mas a desculpa inicial para o livro, de entender o contexto de surgimento de Van Eyck e os outros mestres holandeses a torna, como a de Burckhardt, uma destas obras que homenageiam a grande cultura, uma tentativa de entendimento de como determinado Zeitgeist produz determinada grandeza.

Eu me referi anteriormente à superioridade clássica de Burckhardt em relação a este livro de Huizinga, devido especialmente especialmente a um certo pudor do último em não extrapolar, em se justificar excessivamente. E, de fato, a obra-prima de Huizinga seria uma obra menor e em tudo menos pretensiosa, e, talvez, por isso mesmo, mais livre, seu "Homo Ludens". É o caso de esclarecer que o "Outono..." é, por qualquer parâmetro, um livro genial. Ainda é um texto que se preocupa demais com os "porquês" das ações humanas, o que a essa altura e após tantas décadas de cinismo é uma virtude. E neste cuidado ele chega a uma dimensão francamente espantosa - no sentido que inspira, projeta sua sombra sobre o pensamento - da vida medieval: a do profundo desespero por beleza na vida.

Chegar bem a esta idéia, a de que uma era inteira desesperou pela ausência de beleza na vida e tentou a cada instante encontrá-la e criá-la, tem ressonância neste tempo em que vivemos. Mais que isso, é o tipo de descoberta que paralisa, que obriga à consideração. Trazendo de novo Burkhardt à baila, esta ânsia de beleza é um elemento constante de sua história, quase que a razão de ser do homem renascentista. Mas, no caso dos homens do "Outono...", esta ânsia é contraposta à brutalidade medieval, que é pano de fundo, DNA e essência da época. A ânsia de beleza, em contraste com esta brutalidade endêmica, ganha uma dimensão trágica e absurda. Poucos autores fora da literatura criativa têm a capacidade de dotar idéias de peso estético. Huizinga o faz, tanto nos excursos da idéia de desespero de beleza quanto em outros momentos do livro. Talvez ele não tenha sido o primeiro a dotar a descrição "científica" da realidade de dimensão estética, mas o faz de forma profunda e autêntica, o que poucos, com a excessão talvez dos historiadores clássicos, conseguem.

Um comentário:

Límerson disse...

Ola,

estava lendo o seu texto, vindo parar nele em procura online por O Outono da Idade Média. conhece um link específico de acesso ao livro on line, ou será que não há?

Grato